terça-feira, 29 de abril de 2008

Em dó maior



Lucino Molinari acordara cedo para sua já habitual caminhada. Depois de descobrir que sofria de diabetes, resolveu tomar uma providência para perder seus 45 quilos excedentes. Não foi fácil, mas livrou-se do peso muito rápido. Seis meses depois de se hospedar em um spa, o cantor italiano já não se parecia em nada com o homem gigante que chegou ao sucesso no auge de seus quarenta anos por sua voz altiva e grave.
Estava feliz, claro. Há tempos não conseguia enxergar os pés ao olhar para baixo ou sentir prazer em comprar roupas. Tudo estava bem. Andava mais depressa, tinha mais ânimo para noitadas com a esposa, passou a brincar com o cachorro e também a dar mais atenção aos filhos.
Ele estava ansioso pela sua volta aos palcos. Seria naquela noite, em um programa de televisão. Não conseguia parar de pensar nos elogios que receberia da crítica. Recusou-se a aparecer para a passagem de som, queria surpreender a todos. Nenhum paparazze havia conseguido a façanha de capturar sua esbeltês.
A hora se aproximava e Lucino ficava cada vez mais impaciente.
- Como estou? A roupa não está muito apertada? Muito grande quem sabe?
- Não querido, está tudo perfeito. Acalme-se que já está quase na hora.
A hora chegou a passos de tartaruga para ele, mas sua estréia não poderia ter sido mais chocante. Todos o olhavam com espanto. Sua voz, embora um pouco diferente, estava magnífica. Torceu para que algum jornal publicasse sua participação no programa dominical. Acordou cedo na segunda-feira para sua caminhada. Bem perto de casa procurou logo uma banca a fim de olhar os jornais. Para sua surpresa, ele não estava em manchete de um jornal, e sim de todos:
“Lucino Molinari perdeu peso e também toda sua bela voz...”
“Acaba-se o estrelato de Lucino Molinari...”
“... cantor emagrece e perde sua personalidade notória!”
Aquilo não podia estar acontecendo. Ele não havia mudado e sim evoluído. Era um homem melhor agora. Estava feliz. Maldita mídia que decidiu perturbar sua carreira.
Os dias se passaram e Lucino passou a perceber a hostilidade dos seus fãs. Queriam o velho Lucino de volta. Os amigos lhe instruíam a ganhar peso a fim de não perder de vez sua fama. A mulher e os filhos, passaram a gostar da pessoa alegre que ele havia se tornado e não apoiavam a mudança.
- Mas estás tão feliz homem! Por que haverias de mudar novamente?
O cantor se manteve firme enquanto pode, mas sua carreira estava certamente, arruinada. Não entendia como era possível que as pessoas gostassem tanto daquela imagem rechonchuda e séria que ele era. E mais, não apoiavam a sadia decisão de emagrecer de um homem?
Deitado em sua cama, recebeu a ligação de seu agente:
- Lucino, aqui quem fala é o Moreira. O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora. Parece uma boa oportunidade para reerguer sua carreira... Não, não... querem você como nos bons e velhos tempos: gorducho. Então, topas?



* Conto feito para participar do concurso literário da revista Piauí, onde deveria se produzir um texto com a frase: "O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora."

2 comentários:

Anônimo disse...

Mudar é sempre dificil.. aceitar que as coisas mudam também pode ser.. e mesmo assim elas mudam e mudam e mudam...

Ótimo conto!

Karen Drago disse...

Obrigado querido Anônimo!

De fato... tudo muda!