sexta-feira, 13 de junho de 2008

A gorda


Eu não posso matar minha mãe, mas ela é uma das poucas que sabe o que fui. A “gordinha da mamãe” não teria revirado os olhos e respirado fundo se não fosse o fato de não ser mais gorda. Há um bom tempo por assim dizer. Ninguém que conheci nos últimos cinco anos sequer consegue me imaginar em tamanhas proporções. Devo confessar que eu mesma já não me lembro bem. Recordo apenas de fragmentos como comparações bobas entre lona de circo e minhas calças jeans ou o fato de não enxergar meus pés ao olhar pra baixo. Deveria ser permitido mudar de identidade. Já tentei provar para meu vizinho que sou a prima da menina gorda, mas ele não acreditou. Tentei convencer minhas amigas que as estrias surgiram no desenvolvimento rápido do corpo na adolescência. Disse para meu namorado que sempre fui um pouquinho acima do peso antes da mãe mostrar a foto em que estava gigante. Mas minha mãe já é velha. Quero dizer com isto que ela não sabe mais o que faz. Ou sabe e não se importa. Desde que meus novos amigos fiquem longe da minha família estarei protegida. Quantos aos velhos colegas, a maioria foi embora. Acusaram-me injustamente de não ser mais a mesma pessoa. Claro que não era. Havia retirado uma inteira de dentro de mim. Ainda falo deles aos novos amigos como se tivesse os visto há pouco. Na realidade os afoguei debaixo de toda a banha que drenei de braços e pernas. Azar o deles. Optaram por deixar de conhecer a guria que me transformei. Nada contra quem está acima do peso. Não é isto. Só sei o quanto pode ser normal a vida de uma pessoa que encontra roupas na primeira loja em que entra, que consegue subir escadas sem tossir o pulmão no último lance, ou que pode paquerar sem visualizar o apocalipse. Eu sei como é humilhante e desestimulador ser chamada de rolo compressor, boto rosa, botijão p3, guarda costas do Hulk, montanha de gelatina, entre outras coisas. Já disse: eu era gorda, muito gorda. Mais do que isto, eu era obesa. Minhas bochechas rosadas eram como air-bags naturais, quando minha mão dava tchau meu braço todo acompanhava o aceno de um jeito vibrante e nojento, tinha de andar de pernas abertas fingindo um caminhar descolado quando as coxas assavam de tanto roçarem umas nas outras. Uma vez sentei em cima do cachorro. Não o vi no sofá. Teve duas patas quebradas e não escuta direito até hoje. Sentia-me culpada e principalmente ridícula quando a mãe contou o que tinha acontecido pra todos que pôde durante umas duas semanas. Em outra ocasião, tentando fazer cena para um paquera, entalei em um balanço. A praça estava cheia. Eu também. Tão cheia que tive forças para preencher meu vazio psicológico com alface. Emagreci.


* Crônica sobre "o meu passado recente". Atividade proposta pelo poeta Fabrício Carpinejar em aula no curso de Formação de Escritores e Agentes Literários.

2 comentários:

Paulo disse...

OLÁ.... Nem tanto amiga...
mas coloca uma foto atual
na mesma "pose"para que possamos fazer a comparação
CLARO!! SÓ DO PONTO DE VISTA CIENTÍFICO!!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkaren
(brincadeira) paulo r

Márcia Duarte disse...

Continuar lendo o teu blog vai ser um perigo: vou ficar tentada a fazer o curso!! ;)
hahaha..
Bjãoo..